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terça-feira, 7 de julho de 2026

“A saúde mental não existe. Existe apenas a saúde.”

Há alguns dias circulados um excerto de uma conferência realizada em Girona pelo Dr. José Luis Marín, médico psiquiatra, com um título que, por si só, representa uma declaração de princípios: “A saúde mental não existe. Existe apenas a saúde.” Em primeiro lugar, é importante dizer que esta afirmação não é apenas um jogo de palavras. Marín apresenta uma crítica profunda à forma como a psiquiatria contemporânea construiu seu discurso sobre o sofrimento humano, e esse discurso merece ser baseado com atenção. A ideia central de sua apresentação é simples, embora difícil de aceitar para grande parte do sistema de saúde mental: a depressão não surge primeiro no cérebro e depois se manifesta na vida de uma pessoa. Muitas vezes acontece o contrário. Primeiro acontecer coisas: perdas, luto, violência, solidão, traumas; e só depois podem surgir alterações na química cerebral. Esta nuance é essencial. Transformar a causa em efeito e o efeito em causa significa inverter a lógica do sofrimento humano para adaptar-se a um modelo médico que procura identificar um órgão doente sobre o que possa intervir. Marín também destaca um aspecto já discutido nos trabalhos de Marino Pérez Álvarez e Froxán Parga: a ideia de um suposto déficit de serotonina, usado para explicar o uso generalizado de antidepressivos, não foi comprovado por meio de evidências sólidas. Não se trata apenas de uma opinião marginal ou de uma provocação, mas de uma questão debatida por muitos profissionais de psiquiatria, embora raramente seja explicada ao paciente que recebe uma receita após poucos minutos de consulta. Entretanto, continuamos muitas vezes a tratar como uma doença exclusivamente orgânica aquilo que pode representar, em grande medida, uma ocorrência humana a situação humana. O que considera mais importante na mensagem de Marín é a parte sobre o que quase ninguém fala. Ele não nega que possam existir alterações ao nível do cérebro. Pelo contrário, amplia a perspectiva sobre os fatores que o influenciam. A atividade física, o descanso, a alimentação, as relações sociais, o risco e a redução do contato com substâncias químicas também podem alterar o funcionamento do cérebro. Não é apenas um comprimido que influencia a biologia. É necessário cuidar da vida completa da pessoa — algo que o modelo segundo biomédico por vezes deixa em plano, porque exige tempo, escuta e envolvimento. Tudo isto não significa negar ou minimizar o sofrimento. Marín é claro nesse ponto: as pessoas que passam por depressão, sofrimento, e esse sofrimento é real e profundo. O problema não é considerar a dor, mas sim uma resposta dada, que muitas vezes se reduz a um medicamento destinado a corrigir um desequilíbrio bioquímico que não foi demonstrado de forma convincente. Do ponto de vista da minha, esta abordagem tem uma ressonância especial. Não podemos apresentar o ser humano como uma máquina bioquímica avariada, mas como uma pessoa completa — corpo, alma e espírito — moldada pelas relações, pela sua história, pela queda e pela graça. O sofrimento da alma não pode ser resolvido apenas através da regulação dos neurotransmissores, tal como a restauração do ser humano não acontece exclusivamente através de uma fórmula farmacológica. Existe uma dimensão relacional e espiritual do sofrimento que uma psiquiatria mais redutora muitas vezes deixa de lado, mas que a fé sempre é reconhecida. Assim, aquilo que Marín propõe não é abandonar a medicina ou os tratamentos medicamentosos quando forem necessários, mas devolver à pessoa a sua própria história, o seu próprio corpo e o seu ambiente de vida como elementos legítimos de intervenção, em vez de reduzir a imagem de um cérebro com um suposto defeito químico. Considere que a saúde não significa apenas a ausência de um diagnóstico. Significa a possibilidade real de viver uma vida equilibrada, preparada por relações diferentes e por um sentido profundo de existência — algo que a serotonina, por si só, não consegue oferecer.

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